Serra do Mar

Circuito da Divisa

Às vezes as condições meteorológicas mudam rapidamente e se tornam tão favoráveis que é preciso refazer planos para aproveitar cada minuto do fim de semana. Foi assim que uma caminhada relativamente curta nos Campos de Altitude do Quiriri – limites entre Santa Catarina e Paraná – se converteu em um dos mais belos circuitos de caminhada que já realizei.

mapa-pedra-da-divisa

Tipo: Travessia
Duração: 13-15 horas
Percurso: 23,42 km
Altitude inicial: 1.392 msnm
Altitude máxima: 1.487 msnm
Altitude final: 1.392 msnm
Desnível: 880 m
Esforço: Pesado
Exposição ao risco: Severa
Orientação: Difícil
Insolação: Alta

Pontos de interesse:
Marco da Divisa SC-PR
Pedra da Divisa
Vale Encantado

Estação do ano / Mês:
Outono / Junho

Quem acompanha meu instagram já deve ter percebido que sou apaixonado por uma região pouco conhecida do sul do Brasil chamada Quiriri. Frequentemente faço uma declaração de amor por estas montanhas cobertas de vegetação verdejante e decoradas naturalmente por belas formações rochosas.

Embora a região seja muito bela, o acesso é difícil e praticamente inexiste turismo fora do cena montanhista. Se você não tem a mínima ideia do que estou falando, clique aqui para uma breve introdução.

Bom, chega de preâmbulo! Vamos ao relato desta aventura com direito a escalada, acampamento e um amanhecer inesquecível.

Dia 01: Mangueira do Lageano – Marco da Divisa – Pedra da Divisa – Camping

Partimos de Joinville antes do amanhecer, eu e o amigo Michel Correa (GCM/GRM), com destino ao Alto Quiriri, via Tijucas do Sul. No caminho, muito frio e belas paisagens de campos congelados enquanto o sol despontava no retrovisor. Algumas paradas para fotografia foram inevitáveis.

O relógio marcava 8h50 quando chegamos ao Mirante do Quiriri, próximo do Cume do Tijuco Preto (Tijucume Preto). Registramos alguns instantâneos e fizemos os últimos contatos utilizando o sinal de celular ainda disponível. Às 9h10 seguimos até a Mangueira do Lageano onde estacionamos e, depois de revisar todos equipamentos, iniciamos a caminhada.

Surgiu então a dúvida quanto à programação do dia. Se fôssemos diretamente para a Pedra da Tartaruga (Plano A), chegaríamos muito cedo e ficaríamos um pouco ociosos até o entardecer. Uma alternativa possível seria substituir o local de acampamento pela Pedra da Divisa e passar na Pedra da Tartaruga no dia seguinte (Plano B). Concordamos que esta segunda opção nos proporcionaria um roteiro mais completo e mudamos a trajetória.

Quando havíamos percorrido 6 km, entretanto, ficamos com a impressão de podíamos adicionar mais uma atração no circuito. Estávamos bastante descansados e o isolamento daquela região somado ao clima quase perfeito permitia um recurso nem sempre recomendável: abandonar temporariamente o equipamento para realizar uma caminhada de ida-e-volta sem o peso das mochilas.

Assim, decidimos deixar nossos pertences em uma bifurcação e seguir até o Marco da Divisa antes de retornar para subir a Pedra da Divisa. Na mochila de ataque levamos apenas água e comida. E a máquina fotográfica a tiracolo, claro.

O Marco da Divisa que visitamos é um dos três que foram instalados em 1919, três anos após o fim da Guerra do Contestado, como parte do Acordo de 1916 para solução da questão de limites entre os estados de Santa Catharina (escrevia-se com H à época) e Paraná. Do marco em si, a vista não é tão bela, mas não distante dali é possível apreciar uma grande porção das serras do Araçatuba e Araraquara.

Almoçamos com uma vista inesquecível antes de retornar para o ponto onde havíamos deixado nossas coisas.

Tocava-nos agora um trecho desconhecido até o cume da Pedra da Divisa. Ao longo das próximas horas enfrentaríamos muitas curvas de nível navegando apenas através de um tracklog do GPS. Como não conhecíamos o autor do registro que nos orientava, existia uma incerteza acerca da precisão dos dados. Pra completar, o tempo era exíguo: se começasse a escurecer durante a subida, poderíamos ser obrigados a montar acampamento sem chegar ao objetivo.

Às 17h, após cruzar com dificuldade um trecho de mata que parecia fácil à distância e tendo diante de nós uma subida bastante íngreme, quase optamos por acampar antes da subida final. O que nos fez manter o ataque foi o pensamento de que não poderíamos desistir estando tão perto. Os últimos metros foram de avanço sólido, sem muita preocupação com o desconforto.

Com a sorte ao nosso lado, chegamos ao objetivo a tempo de montar as barracas numa boa posição para o amanhecer do dia seguinte.

Dia 02: Pedra da Divisa – Vale Encantado – Mangueira do Lageano

Com muito frio e vento, a madrugada foi um verdadeiro teste de resistência térmica (virou até crônica!). Embora não tivéssemos termômetro, podemos supor que provavelmente estivemos próximos do zero grau pouco antes do amanhecer.

Tomei café da manhã sem sair da barraca e depois fotografei durante mais de trinta minutos a magnífica paisagem que se desvelava diante de mim. Foi o ápice do circuito e uma das visões mais incríveis que já tive no alto de uma montanha. Simplesmente mágico.

As fotografias falam por si só…

Desmontamos acampamento e iniciamos a descida às 8h30, optando por tentar um caminho diferente do que havíamos usado no dia anterior, o que acabou provando-se uma péssima ideia. O terreno que encontramos era ainda pior e precisamos literalmente deslizar dentre a vegetação com extremo cuidado para não ganhar velocidade e rolar montanha abaixo. Foi o momento mais tenso de todo o circuito, mas felizmente tudo deu certo.

Já no sopé da Pedra da Divisa, o Michel identificou como melhor aproveitar o relevo para seguir no sentido da Pedra da Tartaruga. Na tarde anterior, a pressa de chegar antes de escurecer nos fizera subir e descer colinas que poderiam ter sido contornadas.

Paramos para encher a bolsa de hidratação e seguimos sem muita pressa, admirando a paisagem que era tão bela quanto a do dia anterior. Quando encontramos o Vale Encantado já era quase meio-dia e a ideia de chegar em casa após anoitecer nos pareceu pouco atrativa. Acabamos decidindo por cortar caminho diretamente até o início da trilha.

Chegamos ao carro às 14h10 e decidimos retornar por Campo Alegre, para evitar o trânsito da Serra de Curitiba. Às 17h em ponto estávamos chegando em Joinville, com a satisfação de ter belíssimos retratos na memória (e na câmera pra dividir com vocês, claro!).

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Atenção:

As fazendas dos Campos de Altitude do Quiriri são propriedades particulares acessíveis apenas com veículos de tração integral (4×4) e/ou trilhas de elevado grau de dificuldade. Não ingresse sem autorização expressa dos proprietários, sob risco de sofrer sanções legais.

Conhecimentos avançados de navegação por GPS são imprescindíveis para realização de qualquer trilha na região.

Para mais informações, consulte a Secretaria de Turismo de Campo Alegre – SC através do e-mail turismo@campoalegre.sc.gov.br ou do telefone (47) 3145-1919.

4 ideias sobre “Circuito da Divisa”

  1. Sensacional! Que bela junção de palavras e imagens, revelando lugares que nos são mostrados por pinceladas que nos atiçam a querer ir pra montanha. Mas que com certeza, não mostram toda a beleza vista ao vivo! Deu pra viajar junto… Sentir o frio, a lama, os tombos nas presepadas das trilhas. E emudecer neste amanhecer de dentro da barraca. Muito, muito show! Vou passar adiante o site. Merece ser lido por mais e mais gente!

  2. Maravilhoooso seu relato, Rafa!! Experiência incrível, que com toda certeza nos faz querer ter um dia na vida uma experiência que chegue pelo menos perto dessa… Fico tentando imaginar como é sentir o cheiro do lugar, o som, a energia indescrítivel que arrepia a alma só de ler e ver as fotos.
    Que bom termos você pra nos mostrar essas belezas.
    Desejo o melhor pra sua vida e pra aqueles que juntos à vc, desbravam esse mundão.
    Suas experiências precisam ganhar mais e mais leitores, o mundo precisa te conhecer.
    Parabéééns!!

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