Travessia Cânions Laranjeiras, Portal e Funil

Algumas das paisagens mais bonitas da América do Sul se encontram na região dos cânions entre Santa Catarina e Rio Grande do Sul, ao sul do Brasil. Neste pedacinho do mundo ainda relativamente desconhecido, abismos íngremes e campos verdejantes enchem os olhos daqueles dispostos a se desconectar da civilização.

Tipo: Travessia
Duração: 15-18 horas
Percurso: 27,4 km
Altitude inicial: 1.372 msnm
Altitude máxima: 1.558 msnm
Altitude final: 1.385 msnm
Ganho de elevação: 966 m
Esforço: Pesado
Exposição ao risco: Severa
Orientação: Difícil
Insolação: Alta

Pontos de interesse:
Cânion Laranjeiras
Cânion do Portal
Cânion do Funil
Serra do Rio do Rastro

Estação do ano / Mês:
Abril

Presentes em diversas partes do mundo, os cânions são escarpamentos geológicos formados pela erosão de rochas de diferentes densidades ao longo de milhões de anos.  Muitas vezes localizam-se em regiões áridas e de difícil acesso. Noutras, se apresentam verdejantes, adornadas por rios e cachoeiras, a poucos quilômetros do mar. Uma combinação incrível de características geológicas. É o caso dos cânions do sul do Brasil.

Para mim, este sistema de cânions tem um significado especial. Primeiramente porque faz a fronteira natural entre o estado em que vivo (Santa Catarina) e o estado em que nasci (Rio Grande do Sul). Segundo, porque são cânions tão numerosos que é possível visitas dezenas de vezes sem repetir o destino (já consegui contabilizar 28 cânions diferentes! – lista ao final deste post). Terceiro… bom, as fotos falam por si só.

Sem mais delongas, ao relato!

Deslocamento (véspera do trekking)

Após 6 horas de viagem desde Joinville, no norte de Santa Catarina, estacionamos os carros ao lado do posto da Polícia Militar Rodoviária Estadual, no Mirante da Serra do Rio do Rastro, onde o Thiago (Passeios na Serra) nos esperava com seu transfer 4×4. O valor desse deslocamento até o início da trilha (Fazenda Santa Cândida) pode variar de R$ 18 a 25 por pessoa, dependendo do tamanho do grupo e do horário de chegada. Recomenda-se agendar antecipadamente, especialmente se você for chegar de madrugada (como foi o nosso caso).

Contato do transfer Passeios na Serra:
Thiago – (49) 99126-7949

Dia 01: Fazenda Santa Cândida – Cânion Laranjeiras – Cânion do Portal

O dia amanheceu congelante na Fazenda Santa Cândida, localidade de Santa Bárbara, interior de Bom Jardim da Serra.

Dona Zuê, a responsável pelo local, foi super atenciosa, nos oferecendo em plena madrugada um cantinho para dormir, no sótão da casa. Aliás, que senhorinha mais amada. Verdade seja dita, deu vontade de ficar mais tempo por lá.

O custo de passagem pela propriedade é de R$ 10 e o pernoite não foi cobrado. Por R$ 10 adicionais e sob encomenda antecipada, Dona Zuê oferece também um farto café colonial com pães, bolos e frios.

Contato da Fazenda Santa Cândida:
Neto ou Zuê – (49) 99112-4083

Começamos nossa caminhada às 9h, com céu azul, nebulosidade zero e pouco vento. E a previsão para as primeiras vinte e quatro horas de trilha eram excelentes!

O primeiro trecho foi de leve subida em meio a um bosque bastante bonito, com um área de reflorestamento próximo ao ponto mais elevado. Em menos de trinta minutos já podíamos avistar o Cânion Laranjeiras à distância e antes da primeira hora de trilha, já estávamos às bordas do primeiro paredão de pedra. Ali, com muito cuidado e sempre mantendo uma distância de segurança, tiramos fotografias antes de seguir nosso trajeto.

Com 3 km percorridos, cruzamos a cerca da Fazenda Santa Cândida, adentrando a Fazenda do Seu Juquinha. A pedágio cobrado para cruzar sua propriedade foi de R$ 30 por pessoa.

Neste ponto, desequipamos pela primeira vez e almoçamos à sombra. Em seguida se iniciaria o primeiro trecho difícil da travessia: o infame charco.

Bom, essa parte de trekking merece um título à parte…

Afundando as botas

Não é exagero: cruzar um longo trecho de charco com uma mochila cargueira nas costas é das experiências mais difíceis que um trekking pode proporcionar. Se for charco com mata fechada, como em alguns trechos desta travessia, pior ainda.

O charco ou banhado é produto da prolongada acumulação de água em uma superfície mais ou menos plana e com pouco escoamento. Difere portanto da simples poça, que costuma evaporar após um dia  de sol.

Se a região alagada em questão for usada também como área de pasto, adicione à dificuldade de travessia um alto risco de lesão, afinal as patas dos animais deixarão buracos ocultos abaixo da lâmina da água. Resumindo: caminhar em um charco é um tiro no escuro e a única forma de diminuir os riscos é fazendo uso dos bastões de caminhada e caminhando com muito cuidado, sem pressa de vencer o obstáculo.

Felizmente, tirando um ou outro tombo, ninguém se machucou.

Uma vaca atolada

Quando a avistamos à distância, era difícil ter real dimensão do que estava acontecendo, porém à medida que nos aproximamos foi ficando claro que a vaca, literalmente, havia ido pro brejo.

Os olhos vermelhos de animal desesperado sensibilizaram a todos e foi feito um mutirão para o resgate. Enquanto alguns buscavam pedras e paus, outros tentavam sem sucesso puxar o imenso animal para fora do atoleiro com as mãos. A vaca tentava de todas as formas se revirar e encontrar terreno firme, mas ali tudo era charco, e dos profundos. Não tínhamos uma corda capaz de enlaçá-la. As esperanças foram aos poucos desaparecendo.

Alguém lembrou, então, que poderíamos conseguir sinal de celular se fôssemos até uma região mais elevada. Assim o fizemos, avisando o Seu Juquinha de que um animal de sua propriedade estava atolado e exausto. Dentro de nossas possibilidades, o resgate estava providenciado.

(Dois dias após o término do trekking, recebemos a boa notícia de que a vaca fora resgatada com a ajuda de um cavalo. Todos nos sentimos realizados pela boa ação.)

Continuamos nossa travessia pelas bordas dos cânions com muitas paradas para fotografia e descanso. Como se cronometrado, montamos acampamento no Cânion do Portal pouco antes de começar a escurecer.

Dia 02: Cânion do Portal – Cânion do Funil – Mirante da Serra do Rio do Rastro

Após uma confortável noite de sono, amanhecemos com o suave assovio dos cânions convidando para o nascer do Sol. Ao contrário do que eu imaginava, não fez frio durante a noite. Era o primeiro sinal de que o tempo estava “virando”.

Antes das 6h, estávamos quase todos fora das respectivas barracas, esperando o espetáculo matinal. E ele veio arrebatador. Acho que qualquer coisa que eu escreva aqui será incapaz de expressar o quão belo foi. A fotografia abaixo é uma aproximação mais justa.

Café da manhã tomado, desmontamos o acampamento e nos preparamos para um subir. O dia já iniciaria com um longo trecho de aclive e, depois, uma descida em mata fechada do tipo que costumo chamar de “inferno verde”.

Neste segundo dia, a ideia era seguir apenas até o Cânion do Funil e lá passar a noite, porém a instabilidade do tempo nos fez mudar os planos: ventava bastante ainda antes do meio-dia e nosso instinto dizia que vinha chuva pela frente. Com isso reduziríamos a programação de 3 para 2 dias.

Realizamos uma pequena assembleia e decidimos desequipar em um ponto de onde pudéssemos realizar um bate-e-volta até o Funil. Leves, perderíamos menos tempo e conseguiríamos chegar à rodovia antes da chuva.

Mais uma vez, conseguimos cumprir o objetivo com precisão. É verdade que os últimos 4 ou 5 km caminhamos obstinados, sem curtir muito a paisagem, mas no fim das contas valeu a pena: acampar abaixo de chuva não teria sido assim tão proveitoso.

A sensação de chegar ao final da trilha só não foi melhor que a de comer uma comida quentinha no primeiro posto de gasolina que encontramos aberto na BR-101. Redentor!

Em tempo: o Cânion do Funil encontra-se em área particular, com entrada e saída ao lado da Subestação da Celesc (4 km do Mirante da Serra do Rio do Rastro, sentido São Joaquim). Caso você esteja planejando uma travessia, agende antecipadamente com o proprietário para que ele autorize o ingresso. Valor de R$ 30 sem pernoite ou R$ 50 com pernoite.

Contato do Cânion do Funil:
Miguel – (49) 99127-1014

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Muito obrigado!
Rafa Trotamundos

Atenção:

O trekking descrito acima exige excelente condicionamento físico.

Conhecimentos avançados de navegação por GPS são imprescindíveis.

Não ingresse em áreas particulares sem autorização expressa dos proprietários, sob risco de sofrer sanções legais.

Para mais informações, consulte a Secretaria de Turismo de Bom Jardim da Serra – SC através do e-mail turismo@bomjardimdaserra.sc.gov.br ou do telefone (49) 3232-0454.

* Lista não-conclusiva dos Cânions do Sul do Brasil

Praia Grande (SC) e Cambará do Sul (RS):
Cânion do Itaimbézinho
Cânion Malacara
Cânion Fortaleza
Cânion Índios Coroados
Cânion Faxinalzinho
Cânion Churriado
Cânion Rio Seco
Cânion Rio Leão
Cânion Molha Côcos

São José dos Ausentes (RS):
Cânion Monte Negro
Cânion da Boa Vista
Cânion Amola Faca ou Cânion da Encerra
Cânion da Rocinha

Timbé do Sul (SC):
Cânion Rio Fortuna

Morro Grande (SC):
Cânion do Realengo
Cânion Josafaz
Cânion São Gorgonho

Urubici (SC) e Grão Pará (SC):
Cânion do Espraiado
Cânion da Cruzinha
Cânion da Coxilha
Cânion do Tabuleiro

Bom Jardim da Serra (SC):
Cânion da Ronda
Cânion Laranjeiras
Cânion 
Portal
Cânion do Funil

Jacinto Machado (SC):
Cânion Cambajuva
Cânion da Pedra
Cânion Pinheirinho