4 dias de aventura no Trekking Santa Cruz

Que o Peru é um destino especial para os apaixonados por caminhadas ao ar livre, não é nenhuma novidade. O que muita gente não sabe é que existem alternativas ao tradicional Vale Sagrado dos Incas e que uma cidade do centro-norte do país vai aos poucos se tornando a nova Meca dos Andarilhos.

Há alguns anos, vi a foto de uma lagoa celeste localizada no norte do Peru. Sua tonalidade era incrível e o cenário, de tão belo, desafiava minha credulidade. “Só pode ser Photoshop”, pensei.

Não era. Todas as fotos, profissionais ou amadoras, apresentavam a mesma cor fascinante. Fiquei obcecado com aquela paisagem e quando surgiu a ideia de uma expedição pelas Américas, tive a certeza de que passaria por ali.

Estou falando dessa lagoa: Laguna 69
A inexplicável cor da Laguna 69

Onde fica Huaraz?

Situada 420 km ao noroeste de Lima, Huaraz é a capital do departamento de Ancash e a maior cidade do Callejón de Huaylas, um estreito vale espremido entre duas cordilheiras de nomes diametralmente opostos: Branca e Negra.

A Cordilheira Branca possui nada menos que 23 picos acima dos 5 mil metros e, naturalmente, está repleta de geleiras. No lado oposto do vale, a Cordilheira Negra, menos alta e sem ocorrência de neve, é apenas coadjuvante do cenário vizinho e recebe poucas expedições.

Além destas duas, também existe a Cordilheira Huayhuash, mais ao sul. Apesar de bela, a dificuldade de acesso a torna um desafio possível apenas para andinistas avançados ou para quem dispõe de pelo menos 10 dias para realizar um circuito básico, sem escaladas técnicas.

A beleza natural é evidente, mas outro fator motiva muitos viajantes a viajarem a Huaraz: o ótimo custo-benefício. Enquanto uma trilha de 4 dias no Vale Sagrado pode sair por até 600 dólares americanos, uma experiência similar na Cordilheira Branca custa apenas 100 verdinhas, incluindo acomodação, alimentação, guia e transporte da carga mais pesada em burros. Custando uma sexta parte do preço, dá pra entender por quê muitos viajantes estão deixando Cusco de lado para conhecer um destino menos concorrido.

Meu roteiro na região

Estive 8 dias nos arredores de Huaraz e tive a oportunidade de realizar quatro excelentes roteiros.

O primeiro foi o Trekking Santa Cruz, de 41 km, 4 dias e 3 noites na Cordilheira Branca. Neste post tratarei especificamente sobre ele.

O segundo, para contrabalançar o cansaço resultante da atividade anterior, foi uma tranquila uma visita à ruína pré-incaica de Chavín de Huántar. No meu quinto dia, experimentei um dos maiores desafios físicos da minha vida: a escalada do Nevado Mateo, a 5.150 metros de altitude. Haja fôlego e resistência! Minha última atividade, foi o trekking de 14 km até a Laguna 69, pra fechar com chave de ouro a realização deste sonho.

Sobre o Trekking Santa Cruz

É o trekking mais procurado da região, mas exige bom preparo físico, especialmente para a travessia da cordilheira, a quase 5 mil metros de altitude.

Custa a partir de 250 soles, mas pode ser negociado. Eu consegui pagar 180, comprando na mesma agência o tour para Chavín de Huántar e o deslocamento até o começo da trilha da Laguna 69.

O percurso é um só, mas é possível realizá-lo no sentido Vaquería-Cashapampa ou vice-versa. Essa decisão normalmente cabe à agência.

Você não precisa ter barraca, saco de dormir ou carregar alimentos: tudo isso será oferecido pela agência. Sua única preocupação será caminhar e carregar seus pertences pessoais (roupa extra é fundamental!) em uma mochila e fazer o possível para mantê-la seca.

Leia ao final deste post as dicas para realizá-lo por conta própria.

Descrição dia a dia

No Dia 1, a saída de Huaraz ocorre às 5:30. O deslocamento até a cidade de Yungay dura cerca de 1h30min. Depois do café da manhã no mercado local, a viagem segue até a entrada do PN Huascarán, onde se paga o ingresso. Atualmente os valores são 10 soles (cerca de 10 reais) para um único dia e 65 soles para um ingresso válido por 21 dias.

Chegando a Vaquería (mais 2h de viagem), você recebe uma bolsa com sanduíche de palta (um tipo de abacate nativo dos Andes), banana, biscoitos e chocolate. Trata-se do almoço e cabe a você comê-lo no momento ou distribuir até a hora da janta (opção mais inteligente). São 9 km até o primeiro acampamento. Hora de caminhar!

Esse primeiro dia é uma espécie de ambientação: caminha-se apenas 9 km e a elevação não é muito grande. Mesmo assim, tivemos 3 “desistências” de pessoas que consideraram o ritmo muito extenuante (mas depois, mais calmos, voltaram atrás).

À noite, a janta é servida de forma bastante simples, como costuma ser em acampamentos: chá de coca, sopa de trigo, legumes e frango (um pedaço pequeno).

Minha noite foi especialmente difícil nesse primeiro dia. Dormi pouquíssimo. Estava frio e minha roupa completamente molhada (por algum vacilo, até os sacos de dormir que foram carregados pelo burro foram molhados durante o trajeto).

O Dia 2 é o mais pesado. São 14 km e a maior elevação (aproximadamente 800 m). O trecho que antecede o passo Punta Unión é o pior momento. A exaustão e a altitude prejudicam a coordenação motora e é preciso respeitar os limites do corpo: em caso de cansaço, uma queda pode ser fatal. Melhor descansar!

Dependendo do ritmo do grupo, o Dia 3 pode ser o último.

Explico: faltando 18 km para terminar o trekking, praticamente tudo é descida. Se o grupo de trilheiros mantiver uma boa velocidade, pode-se caminhar toda essa distância em um único dia. E no quarto dia sobra tempo para passar a manhã nas águas termais próximas do fim da trilha.

Nosso grupo topou e foi ótimo: nada como terminar uma trilha com um banho relaxante em uma água quentinha. 🙂

A outra opção seria caminhar 12 km no Dia 3 e os últimos 6 km no Dia 4, retornando para Huaraz logo em seguida.

Fim de trilha, hora da comemorar a conclusão da aventura com cerveja!

Minhas dicas

  • Mochileiro que  estiver viajando com barraca leve, poderá tranquilamente realizar o trekking por conta própria, sem contratar agência ou mulas. Para tanto, precisará pegar um ônibus até Yungay e de lá uma van sentido Vaquería. É facil encontrar esse transporte, próximo do Mercado Público da cidade.
  • Se optar por essa aventura, não esqueça do mais básico: barraca, isolante térmico, saco de dormir para temperaturas negativas, lanterna e alimento rico em gordura. Você não quer morrer de hipotermia, né?
  • Não é preciso levar água. São diversas as corredeiras do caminho. Uma garrafa de plástico pequena é o suficiente.
  • Instale o aplicativo MapsME no seu celular e baixe o mapa da região que já inclui o trajeto a ser realizado a pé.
  • Algumas folhas de coca serão muito úteis na travessia de Punta União. A subida é bastante acentuada e pode nevar, dificultando ainda mais a respiração.
  • Boa sorte! 😉

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Galeria completa de fotos do Trekking Santa Cruz

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