Arquivo da tag: canadá

Pedalando com Amyr Klink

UM: já parou pra pensar que a “vida dos sonhos” pode não ser exatamente como se apresenta nas redes sociais?

DOIS: você tentaria vivê-la mesmo assim ou é mais confortável deixar as coisas como estão?

Pergunto porque, vez por outra, alguém me diz “quero ser você” ou “me empresta sua vida”, mas basta conversar um pouco pra perceber que a pessoa – UM – se baseia apenas nas fotos que mostram a parte moleza de minhas viagens e – DOIS – está presa na velha armadilha das desculpas convenientes.

É o seu caso? Você sempre sabe o que responder quando alguém te faz um convite fora do roteiro?

Caso afirmativo, vou lhe contar porque – UM – eu acho que esse papo de vida dos sonhos é uma ilusão e – DOIS – você deve correr atrás dos sonhos mesmo assim.

Banheiro do Parque Municipal de Cobourg, Ontário.

 

Uma das grandes motivações que tive para que meus planos deixassem de ser feitos apenas de megabites de informação esquecidas em um computador foi a leitura de CEM DIAS ENTRE CÉU E MAR, do Amyr Klink.

Sempre admirei o famoso navegador brasileiro que entre outras façanhas foi capaz de cruzar o Atlântico em um barquinho a remo e passar um ano sozinho da Antártida, sendo sete deles encalhado. Pra mim, Amyr era uma espécie de entidade sobre-humana capaz de fazer aquilo que os mortais apenas podiam imaginar. Era conveniente, portanto, pensar que Amyr não era alguém de carne e osso. Esse raciocínio tirava de minhas costas a enorme responsabilidade que eu deveria ter sobre meu próprio destino.

Ocorre que, lendo os livros de meu ídolo, percebi que éramos muito mais parecidos do que eu imaginava. Ele certamente era mais esforçado e persistente, mas não existia nada em sua história que eu não pudesse tentar fazer eu mesmo. Amyr não nasceu milionário, não ganhou na loteria e não se tornou um grande atleta num sorteio de bingo. Ele simplesmente fez algo que eu jamais tinha feito: encontrou a CORAGEM de fazer o que para todos os demais era LOUCURA.

Depois de algumas sandices menores, achei que eu já estava pronto pra extremar minhas escolhas de vida e comprei uma bicicleta. Isso foi em Kingston, Canadá, durante minha viagem panamericana de 2016-2017.

Ninguém acreditou quando, no meio de um mochilão, anunciei que havia me tornado cicloviajante e que começara a pedalar em direção à costa oeste da América do Norte sem saber onde aquilo ia terminar (spoiler: San Francisco, Califórnia).

Aqui retorno ao aspecto UM deste pequeno texto realista. Para muitos eu estava vivendo a vida dos sonhos, embora na maior parte dos dias eu estivesse indo dormir fedido, com fome e frio. E o pior nem era isso, pois, pra completar, eu estava sozinho! Só quem já dormiu sozinho, fedido, com fome e frio durante quase dois meses pode entender do que estou falando.

No começo, era grande a sensação de não pertencimento. Às vezes me sentia um fantasma invisível por onde passava e às vezes parecia que minha única função no mundo era atrapalhar o trânsito. Nesse momento, já perdendo um pouco o fio da lucidez, comecei a pedalar (ao menos imaginariamente) ao lado de Amyr Klink.

As coisas melhoraram muito a partir daí. Amyr me entendia e sabia que você só consegue ter a beleza das grandes paisagens quando aceita a dificuldade de chegar até lá. E se ele podia ter um cardume de estimação no meio do Oceano Atlântico, eu também poderia ter uma companhia fictícia e uma bicicleta com sentimentos. Louco com louco se entende.

Aspecto DOIS: dia a dia, as dificuldades que eu enfrentava se tornavam mais leves ao passo que eu percebia que algo maior estava acontecendo comigo durante aquela aventura. Era uma transformação pessoal muito além da simples viagem. Apesar das agruras, a solidão da estrada havia me presenteado a introspecção que eu precisava para rever meus valores e traçar novos projetos de vida. Minha mente precisou se esvaziar completamente de preocupações banais como contas a pagar para focar no que realmente importava: o que eu preciso fazer pra ser feliz? Sem fórmulas mágicas e sem vitimismo, eu compreendi que já estava vivendo meu sonho desde o instante em que comecei a praticar o que admirava nos outros.

Talvez pela primeira vez na vida eu estava verdadeiramente realizado. Diante de mim, a escolha consciente entre o caminho da conveniência e o da aventura.

E pra mim estava claro que em mil vidas, eu escolheria sempre a última.

Obrigado, Amyr!


Nota 1: cicloviagem solo realizada entre maio e julho de 2017, de Kingston, Ontário, Canadá, a San Francisco, Califórnia, Estados Unidos da América.

Nota 2: Compartilhamentos nas redes sociais serão sempre bem-vindos (use os botões abaixo para Facebook, Twitter, Google+ ou para enviar por e-mail para algum amigo aventureiro). Não reproduza parte ou totalidade desta página sem citar a fonte. Muito obrigado por chegar até aqui! <3