O primeiro mês na estrada

Finalmente iniciar a longa viagem depois de tantos meses de espera traz um grande alívio e satisfação. Traz também um duro choque de realidade. A medida que o ponto de partida vai ficando para trás, os pequenos luxos do cotidiano – banho, internet, cama quente – tornam-se verdadeiros eventos. Por isso mesmo, talvez a melhor palavra para definir estes primeiros trinta dias na estrada seja adaptação.

Esperava algo como sonho ou realização? É, tem muito disso também, mas nada exprime melhor o primeiro mês Trotaméricas do que tê-lo passado adaptando-me a nova rotina de muita estrada e pouco descanso.

Tchau, zona de conforto! Aqui é estrada!

Nova rotina e primeiros perrengues

Nos primeiros trinta dias acampamos 17 vezes em postos de combustíveis e terrenos abertos, estivemos hospedados com amigos e couchsurfers durante 12 noites e apenas 1 vez pernoitamos em pousada. Percorremos 10.253 km, ou seja, uma média de quase 350 km por dia. Dá pra cansar só em imaginar.

Visitamos lugares maravilhosos: 5 Patrimônios da Humanidade, diversos parques e reservas nacionais ou provinciais, cidade belíssimas. E a estrada! Que por si só já é uma atração.

Infelizmente, algumas surpresas não exatamente positivas também foram adjacentes. Apesar das revisões elétricas e mecânicas pelas quais passou o Papa-Léguas, a Land Rover Defender do Tim, diversos problemas apareceram tão logo cruzamos a primeira fronteira.

Começou com algo aparentemente banal. O rádio não funcionava sempre e, estranhamente, o conversor de energia “apitava” quando utilizado. Não sabíamos o porquê.

Quando estávamos em La Paloma, Uruguai, quarto dia de viagem, o carro não saiu mais do lugar. O motor de partida funcionava, mas o motor não iniciava. Com o histórico do rádio e do conversor, logo imaginamos que estávamos diante de uma pane elétrica (mal contato, curto-circuito ou algo do gênero), mas o problema real estava na ignição. O tambor da chave (cilindro) havia quebrado e a chave permaneceu ali, emperrada.

A boa e velha gambiarra foi o caminho a ser tomado. Com a ajuda de um eletricista, realizamos uma ligação direta com materiais de contrução improvisados e um interruptor comum funcionando como corta-corrente. Não era a melhor maneira, afinal o superaquecimento poderia gerar um grave curto-circuito, mas desta forma chegamos à Montevidéu, onde trocamos o interruptor de plástico por um metálico e seguimos viagem.

Pernoite em frente aos Bombeiros de La Paloma, para onde empurramos o carro enguiçado.
Pernoite em frente aos Bombeiros de La Paloma, para onde empurramos o carro enguiçado.

Na capital uruguaia, estando em casa de grandes amigos, tivemos uma acolhida calorosa e uma série de reencontros regados a Fernet. Foram dias para recarregar as energias depois de uma situação difícil. Dali, seguimos viagem em busca do sonho.

O roteiro

Poucas alterações em relação ao roteiro previsto. Foram excluídas Mar del Plata (por logística) e a Ilha de Chiloé (por chuva torrencial). Entrou na rota Pico Truncado, na província de Santa Cruz, Argentina.

Dia Data De Para Destaques
1 17/11/2016 Caxias do Sul Pelotas
2 18/11/2016 Pelotas Chuí
3 19/11/2016 Chuí La Paloma
4 20/11/2016 La Paloma Montevidéu
5 21/11/2016 Montevidéu
6 22/11/2016 Montevidéu
7 23/11/2016 Montevidéu Fray Bentos Colônia do Sacramento (UNESCO)
8 24/11/2016 Fray Bentos Buenos Aires Paisagem industrial de Fray Bentos (UNESCO)
9 25/11/2016 Buenos Aires
10 26/11/2016 Buenos Aires Viedma
11 27/11/2016 Viedma Puerto Madryn Punta Bermeja
12 28/11/2016 Puerto Madryn PN Península Valdés (UNESCO)
13 29/11/2016 Puerto Madryn Pico Truncado Punta Tombo
14 30/11/2016 Pico Truncado Sierras Blancas, Bosques Petrificados
15 01/12/2016 Pico Truncado Rio Gallegos Gran Bajo San Julián
16 02/12/2016 Rio Gallegos Ushuaia Ferry Estreito de Magalhães (Punta Delgada-Punta Espora)
17 03/12/2016 Ushuaia
18 04/12/2016 Ushuaia
19 05/12/2016 Ushuaia
20 06/12/2016 Ushuaia Punta Arenas
21 07/12/2016 Punta Arenas PN Torres del Paine
22 08/12/2016 PN Torres del Paine
23 09/12/2016 PN Torres del Paine Trilha do Mirante Base das Torres del Paine
24 10/12/2016 PN Torres del Paine El Calafate
25 11/12/2016 El Calafate El Chaltén PN Glaciares (UNESCO)
26 12/12/2016 El Chaltén Ruta 41, Monte Fitz Roy
27 13/12/2016 El Chaltén Perito Moreno Cueva de las Manos (UNESCO)
28 14/12/2016 Perito Moreno Cerro Castillo
29 15/12/2016 Cerro Castillo Chaitén
30 16/12/2016 Chaitén Puerto Varas

Os destaques

Não tenho como negar que a Patagônia sempre foi um sonho para mim e apenas por isso já seria o grande destaque. Já havia me imaginado cruzando-a em bicicleta e mesmo em carro, com um roteiro bastante parecido ao do Tim. Naturalmente que a emoção foi grande ao entrar na província argentina de Chubut e ver a paisagem assumir características totalmente diversas de tudo que já havia visto. Península Valdés, Punta Tombo, Ushuaia, Torres del Paine, El Chaltén e El Calafate… não saberia dizer qual me agradou mais. Talvez as fotos falem por mim.

O primeiro contato com a fauna silvestre e marinha patagônica na árida Península Valdés

Punta Tombo: a proximidade com os pinguins de Magalhães, na maior colônia dessa espécie no mundo

A sensação de descoberta ao encontrar a paisagem lunar dos cânions de Sierras Blancas, em Pico Truncado

O fim ou o começo da estrada no Parque Nacional Tierra del Fuego

A inigualável, emocionante, única (faltam adjetivos) vista das Torres del Paine

A sensação de pequenez e insignificância humana diante do Glaciar Perito Moreno, no Parque Nacional Los Glaciares em El Calafate

Perder a noção do tempo em Bajo Caracoles, onde homens registraram sua história de vida, há 10.000 anos

Resumo:

2 dias no Brasil, 5 dias no Uruguai, 15 dias na Argentina e 8 no Chile

Distância percorrida: 10.253 km (1.342 litros de diesel).

Diesel mais caro: R$ 3,75 por litro (El Chaltén, Santa Cruz, Argentina).

Diesel mais barato: R$ 2,00 por litro (Refinaria de Cullén, Ilha da Terra do Fogo, Chile).

Maior distância percorrida em um dia: 947, Buenos Aires-Viedma

Travessias de ferry: 6

Patrimônios da Humanidade: 2 no Uruguai (Colônia do Sacramento e Paisagem Industrial de Fray Bentos) e 3 na Argentina (Península Valdés, PN Los Glaciares e Cueva de Las Manos).

Quero voltar: Torres del Paine, no Chile. Um sonho esperado há muito tempo e que consegui realizar, apesar das dores no pé que me incomodam desde o começo da viagem. Em dois dias de trilha, foram 16 horas de caminhada. Gostaria de retornar para fazer o circuito O, de sete dias.

Não repetiria: Não repetiria a Carretera Austral. Todo o trajeto entre Puerto Natales e El Chaltén, mais ao sul, é muitíssimo mais bonito e consideravelmente mais barato (em apenas um dia, gastamos 100 dólares em ferry, entre Chaitén e Puerto Montt). Eu diria que o Chile soube vender a Carreteira Austral até bem demais. Acabou se tornando no imaginário aventureiro algo maior do que realmente é: uma estrada de chão esburacada em que chove praticamente todos os dias do ano.

Curiosidades:

Em Puerto Madryn, Argentina, conhecemos um viajante cego que percorria o mundo ignorando a deficiência visual.

Também na Argentina, passamos pelo Gran Bajo San Julián, o ponto mais baixo da viagem, cerca de 100 metros abaixo do nível do mar.

Próximo a Punta Arenas, cruzamos com uma localidade de nome curioso: Puerto del Hambre (Porto da Fome). O nome tem origem na triste história de náufragos chilenos que aguardaram meses pela passagem de um navio de socorro que nunca chegou. Morreram de inanição e frio.

Na mítica Ruta 40, encontramos um ciclista lesionado que pedia ajuda às margens da rodovia. Colocamos a bicicleta no rack e o levamos até a cidade de Perito Moreno, a mais próxima dotada de infraestrutura para sua recuperação.

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