A despesa com manutenção prévia vai depender muito das condições do veículo e de seu modelo.

Organização para cair na estrada: como a Expedição Trotaméricas se tornou realidade

Desde que a Expedição Trotaméricas veio à tona, muita gente me questionou sobre Planejamento e Custos. Esse post é justamente para ajudar um pouco quem está com o sonho na gaveta, esperando um empurrãozinho. Bora lá?!

Primeiramente, cabe dizer que essa aventura não é nenhuma cortesia da fabricante de automóveis, nem herança de um parente rico.

Foi necessário um longo período de economias (no meus caso, para ser exato, 22 meses desde que estipulei a meta de viajar durante um período sabático).

Como sou economista, fiz decisões de investimento baseadas no que eu considerava mais coerente. E felizmente a grande maioria dessas decisões se mostrou bastante acertada.

Como esse tema é bastante extenso, vou  dedicar um post exclusivo para “economia de guerra”. Podem me cobrar! 😉

Planejamento

Bom, uma vez definidas as linhas gerais, foi hora de se arregaçar as mangas para:

  1. definir o itinerário em detalhes;
  2. calcular o período necessário para percorrê-lo; e
  3. estimar o custo que isso teria.

Já nesse momento, tínhamos a participação confirmada da amiga Leo Stanziola para nos acompanhar partir do Panamá. Precisávamos ainda de outro integrante para o trecho sul-americano.

E expedicionário que faltava veio da terra da Democracia, das Olimpíadas e do Uzo, vejam só, diretamente da Grécia!

O Giorgios Diamantis ficou sabendo do nosso projeto através de um amigo comum, o Vitor (que, diga-se de passagem, é filho do Tim). Sua empolgação em participar foi o gás que nos faltava para definir o restante.

A partir daí, com a possibilidade de se dividir todos os gastos da viagem por três, o sonho estava mais próximo do que nunca!

Saiba mais sobre os PARTICIPANTES da Expedição aqui.

Bom, voltando ao planejamento, é preciso exaltar o Tim, que foi a cabeça pensante dessa trabalhosa tarefa de pesquisa do itinerário. Ele é um ávido leitor de guias de viagem e já possuía experiência de expedição offroad. Sua orientação foi fundamental para que eu não perdesse tempo nas minhas pesquisas complementares. Assim, pude contribuir também, mesmo sem expediência nesse tipo de viagem.

Essa etapa levou 6 meses. Foi o tempo necessário para finalizar o roteiro, emitir a documentação necessária, realizar manutenção preventiva no veículo, solicitar dispensa do trabalho, desocupar a casa e fazer contatos nos países pelos quais passaríamos.

Paralelamente, buscamos apoio para criação do site e da identidade visual do projeto, o que conseguimos com a excelente Brasil na Web.

A data de partida

Por conta da rigorosidade dos climas da Patagônia e do Alaska, seria necessário coincidir a passagem por estes extremos com o verão local.

Este foi o motivo de partirmos antes do início de dezembro, assim chegaríamos a Ushuaia antes da virada do ano e à Baía de Prudhoe, no outro extremo do continente americano, antes de junho (verão do hemisfério norte).

Custos

Como vocês poderão ver a seguir, alguns custos dessa aventura são maiores que os de um mochilão (minha modalidade preferida de viagem), outros, surpreendentemente, menores.

Para melhor expor, dividi as despesas em 5 categorias:

  1. documentação;
  2. transporte;
  3. alimentação;
  4. hospedagem; e
  5. seguro e ingressos nas atrações incluídas na viagem.
  • A despesa com manutenção prévia vai depender muito das condições do veículo e de seu modelo.
    A despesa com manutenção prévia vai depender muito das condições do veículo e de seu modelo.

    Documentação

Começando pelo mais básico dos documentos de viagem: o passaporte.

Atualmente, a emissão do passaporte brasileiro custa R$ 257,25, para quem realiza o procedimento em território nacional, sem solicitação de urgência.

Apenas o passaporte, entretanto, não é suficiente. Dentre os 23 países continentais das Américas, dois exigem emissão prévia de visto para cidadãos brasileiros: Estados Unidos e Canadá. Todos os demais, admitem a possibilidade de se tirar visto no passo fronteiriço, ou mesmo dispensam esse obstáculo.

O custo do visto estadunidense do tipo B1/B2 (turista) é de 160 dólares americanos (aproximadamente R$ 520), mais despesas de deslocamento e acomodação (se necessários).

O visto canadense custa 100 dólares canadenses (aproximadamente R$ 250), mais taxas de envio e devolução.

Foi necessária também a emissão da Permissão Internacional de Dirigir (PID). Trata-se de uma simples tradução da carteira nacional de habilitação (CNH). É emitida pelo Departamento de Trânsito de cada unidade da federação e tem custo variável. Em Santa Catarina, paguei R$ 74,20.

O Certificado de Registro e Licenciamento de Veículo (CRLV, aquele certificado verdinho popularmente conhecido como “documento do carro”) não necessita ser traduzido. Basta levá-lo (na versão mais recente, claro) e pagar as taxas de imigração e seguro diretamente na fronteira, quando for o caso.

  • Transporte

Incluem-se nesta categoria todas despesas relativas ao veículo, bem como dois trechos aéreos.

Algumas fronteiras cobram taxas de migração, outras exigem seguro obrigatório e também há aqueles policiais corruptos que cobram propina (no Brasil e no mundo, ô situaçãozinha chata). Um gasto maior que estes, porém, é o com combustível e manutenções preventivas e de rotina. Estes gastos, segundo nossos cálculos, totalizarão cerca de 30 dólares americanos por dia (ou R$ 100), que divididos entre o número de passageiros, será pouco mais de R$ 30.

A grande despesa dentro desta categoria, entretanto, ainda não foi citada: o infame despachos aduaneiros.

O Papa-Léguas é muito valente, mas ainda não aprendeu a nadar. E como a Rodovia Panamericana é interrompida na região do Darién, entre Colômbia e Panamá, por um denso e prolongado pântano, só resta mesmo a via marítima.

Trecho da Expedição Trotaméricas entre Colômbia e Panamá.
Trecho da Expedição Trotaméricas entre Colômbia e Panamá.

Até um tempo atrás, existia um benevolente ferry que quebrava o galho dos viajantes por um preço camarada, mas adivinhem só… foi “descontinuado”.

Claro que colombianos e panamenhos aproveitaram-se dessa situação e passaram a cobrar um preço absurdo para levar seu carro de um lado para o outro. Atualmente, cerca de 1.200 dólares americanos, mais de R$ 4.000. E esse é apenas o primeiro despacho.

Na volta, também precisaremos recorrer à via marítima entre Estados Unidos e América do Sul (Colômbia ou Venezuela). Isso para que não seja necessário fazer todo o trajeto pela América Central novamente. Esse despacho, entretanto, é mais “sensato”. Custa a partir de 2.300 dólares (R$ 8.000) e, com sorte e planejamento, pode ser realizado em um container de 40 pés que permite transportar 2 veículos ao mesmo tempo. Em outras palavras, pode sair praticamente o mesmo preço da travessia do Estreito de Darién, porém para uma distância muitíssimo maior.

Quer mais? Você não pode viajar junto com o carro na embarcação!

Sim, isso é chato demais. E pra piorar, você ainda precisa chegar pelo menos um dia antes que o container para que dê tempo de realizar os trâmites aduaneiros no país de destino. As passagens aéreas variam muito e por diversos fatores, mas é sensato considerar R$ 500 entre Cartagena e Cidade do Panamá e R$ 1.500 entre Miami e Cartagena ou Caracas.

Dividindo o custo dos dois despachos e dos dois vôos, aproximadamente R$ 14.000, pelo número total de dias e, posteriormente, pelo número de passageiros, chega-se a um gasto médio de cerca de 3 dólares americanos, ou R$ 10 / dia / participante..

Em resumo: combustível, taxas e despachos, totalizam o grande gasto da viagem, cerca de R$ 40 por dia, por passageiro. Por prudência, estamos trabalhando com o “número mágico” de R$ 50 / dia / participante.

  • Alimentação

É aí que vem o “pulo do gato”: se o custos de documentação e transporte são bastante altos, comer em uma expedição como a nossa torna-se muito mais barato que em uma viagem independente (e até mais barato do que ficar em casa, arrisco-me a dizer).

Levaremos nossa própria cozinha móvel e pretendemos preparar nós mesmo os desjejuns e as jantas. Na hora do almoço, por questão logística, certamente será melhor comer algo pelo caminho.

Estou prevendo um gasto diário de cerca de R$ 30 / participante (“chutando pra cima”)

  • Hospedagem

Veja bem, como bom mochileiro, eu costumo abusar das diversas formas de acomodação solidária. Viajando só, uso muito o Couch Surfing e sempre faço contatos prévios nos destinos que pretendo visitar.

Para a Expedição Trotaméricas, as coisas mudam um pouco de perfil, de forma que optaremos por campings, de modo geral. O jipe já possui uma barraca de teto e, além desta, levamos duas auxiliares.

Infelizmente, lá se foi o tempo em que campings custavam 5 reais, então estamos estimando um gasto médio de R$ 50 / dia / veículo. Alguns locais cobram por pessoa, mas não acreditamos que a despesa passará de R$ 15 / dia / participante.

Essa despesa será reduzida, naturalmente, nas cidades onde temos amigos para visitar e amigos dos amigos, que nos recebem de coração aberto.

Aliás, você conhece alguém nas cidades do nosso ITINERÁRIO? Quem sabe aquele alô para um apoio logístico?

Toda ajuda é bem vinda!

  • Seguro e ingressos

Eis duas despesas que invariavelmente geram dilemas. E que são de foro bastante íntimo para haja uma lei geral.

Diante das características dessa viagem, eu optei por não realizar seguro de saúde. Os valores cotados eram, de fato, proibitivos. Fiz apenas a apólice de seguro dos equipamentos fotográficos, o que saiu por R$ 338,17.

A respeito dos ingressos, muita gente argumenta que cada lugar se trata de uma experiência única na vida e que se deve fazer tudo que é possível. Não deixo de dar razão. Mil vezes investir em experiências do que em bens materiais.

Entretanto, a realidade (a minha, pelo menos) limita um pouco essas vivências. Pessoalmente, acho que algumas atrações são realmente imperdíveis. Ponha aí as dezenas de Patrimônios da Humanidade. É um bom parâmetro.

Atrações menores, provavelmente ficarão de lado. Até porque tenho interesse de visitar escolas, conversar com locais e documentar a viagem de diversas formas… essa investigação sociológica certamente será prioridade, em detrimento das atividades turísticas.

Fechando a conta

Ufa! Esse post ficou mais longo que o esperado!

Depois de todas essas explicações, é hora de passar a régua para ver quanto custará, na média, um dia de Expedição Trotaméricas.

Documentação
R$ 5,00  / dia / participante

Transporte
R$ 50,00 / dia / participante

Alimentação
R$ 30 / dia / participante

Hospedagem
R$ 15 / dia / participante

Ingressos das atrações
R$ 15 / dia / participante

Margem para imprevistos
R$ 35 / dia / participante

TOTAL:

R$ 150 / dia / participante
(aproximadamente 45 dólares americanos)

Menos de 50 dólares?! Hmmm… bastante razoável, não?

Por experiência própria, posso garantir que esse valor está abaixo da média para uma viagem internacional. Quando viajo como mochileiro, normalmente gasto nessa faixa de valor ou até mais, dependendo do destino. Certamente alguém que viaja para os EUA ou Europa, pagando por acomodação, ultrapassa facilmente esse limite apenas para dormir e se alimentar.

Espero ter conseguido explicar as despesas principais dessa aventura e encorajado quem sonha com algo parecido.

Se restou alguma dúvida, não hesite em utilizar a caixa de comentários abaixo para perguntas. Responderei-as aqui mesmo, para que todos possam visualizar a resposta.

Um grande abraço,

Rafa Trotamundos

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Atualização (20/01/2017): em Arequipa, sul do Peru, os constantes percalços com nosso meio de transporte provocaram a drástica decisão de seguir viagem sozinho, mochilando, enquanto o Tim retornou para o Brasil com o jipe Papa-Léguas. Na ocasião, depois de muito refletir, foi considerado economicamente inviável realizar fora do Brasil todas as manutenções necessárias. Mais informações nas seções Itinerário e Etapas.

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