La Rinconada: conhecendo a cidade mais alta do mundo

Como será a cidade mais alta do mundo? Foi buscando respostas para essa pergunta que a Expedição Trotaméricas chegou à remota localidade de La Rinconada, no sudeste do Peru.

Neste post eu conto um pouquinho sobre a cidade e como foi a passagem por lá!

No coração dos Andes, acima dos 5 mil metros de altitude, está La Rinconada. Talvez você nunca tenha ouvido falar, mas esta é a cidade mais alta do mundo. Respira fundo porque o soroche (mal agude de montanha) é garantido!

O ouro do glacial

La Rinconada está a cerca de 4 horas da margem norte do Lago Titicaca, em uma seção do Andes peruanos conhecida como Cordilheira de Apolobamba. Juliaca é a cidade grande mais próxima.

Desde que se descobriu ouro por ali, muitos trabalhadores da província de Puno e do restante do país migraram para a localidade em busca do sonho de enriquecer rapidamente. Afluíram os aventureiros e a cidade cresceu desordenadamente. Com a alta no preço do ouro nos últimos 15 anos, La Rinconada superou os 50 mil habitantes (2012), mas ainda carece de estrutura suficiente para proporcionar bem-estar aos seus moradores.

Em 2003, a prestigiada revista National Geographic afirmou que seus 5.099 metros sobre o nível do mar a legitimavam como a cidade mais alta do mundo, superando, assim, a chinesa Wenquan em 80 metros. (veja a lista completa aqui)

A fama internacional, no entanto, não modificou a vida local. Tudo segue girando em torno da extração aurífera nas montanhas geladas rinconeiras.

Para quem nunca foi apresentado, esta é uma pepina de ouro puro.
Para quem nunca foi apresentado, esta é uma pepina de ouro puro.

O trajeto

As paisagens rurais do caminho são belas, como costuma ser no Peru. A cordilheira, quase sempre presente, é um espetáculo que fica ainda mais belo com a presença de campesinos e campesinas cultivando a terra com seus coloridos trajes. No horizonte, à medida que a altitude vai aumentando, a neve começa a se fazer mais e mais presente.

Crianças brincando às margens da rodovia.
Crianças brincando às margens da rodovia.

A estrada desde Juliaca é relativamente boa durante os primeiros 130 km, até San Antonio de Putina. Dali em diante, acaba o asfalto e não há qualquer sinal de manutenção na pista.

Os últimos 50 quilômetros são especialmente duros. O trânsito de caminhões pesados na estrada de chão batido acaba gerando uma sequência interminável de buracos.


As primeiras impressões

Uma pesquisa prévia no YouTube permitia se ter uma ideia do que é La Rinconada: abundam títulos como O inferno na terra, Lugares mais horríveis do mundo ou A mina do Diabo. Infelizmente, não existe muito exagero em tudo isso.

Chegar na localidade está longe de ser algo agradável. Os quilômetros que antecedem a cidade são um verdadeiro lixão a céu aberto. Todos rejeitos da cidade param invariavelmente ali.

O odor não chega a ser insuportável porque o frio ajuda a evitar que os resíduos orgânicos de fato apodreçam, mas a visão é horrível e nada receptiva.

As condições de vida não melhoram muito ao chegar-se na cidade.

Ao chegar na cidade, a presença de estrangeiros logo se tornou uma espécie de atração extraordinária. Muitos morados vieram conversar, inclusive crianças interessadas em “aparecer na TV”.

Durante cerca de meia hora conversei e entrevistei um mineiro local especialmente interessado em denunciar os ataques do governo peruano que tenta instalar ali uma grande companhia mineradora e acabar com a extração artesanal.

“Turpo” é um dos milhares de mineiros de La Rinconada. Ele garante que La Rinconada é a maior riqueza do Peru e teme pela privatização da mina.

Depois da interessante conversa, caminhei um pouco pelas ruas e visitei uma das inúmeras oficinas de limpeza de ouro, onde troquei ideia com outros moradores.

A dura vida do rinconeiros

Se a vida já não é fácil a 5.000 metros de altitude, pior é dentro dos túneis de uma mina, onde o ar não apenas é rarefeito, mas também extremamente poluído. À noite, para dificultar um pouquinho mais as coisas, as temperaturas podem baixar a 25 graus Celsius negativos.

A náusea resultante da atividade física em regiões de montanha castiga o corpo e a mente. Em ambientes fechados, a sensação de sufocamento é muitíssimo pior.

Dados da OMS e do Sindicato Nacional de Trabalhadores em Minas afirmam que os mineiros peruanos tem uma expectativa de vida em média 9 anos inferior a do restante da população. Segundo a organização laboral, a totalidade dos trabalhadores de minas sofre de algum grau de silicose, uma inflamação pulmonar provocada pela inalação permanente de cristais de sílica.

A triste aceitação da prostituição de menores

Provavelmente devido a estas condições tão brutais de trabalho é que tenha se desenvolvido a crença popular de que os mineiros precisam ser mujeriegos y borrachos (mulherengos e bêbados) para obterem sorte na busca por ouro. Esta percepção da atividade mineira é também muito comum na Bolívia.

Acredita-se que o Tío de La Mina – espécie de entidade mística andina que controla os portões do mundo subterrâneo – determina a sorte ou azar de todos que ali entram baseado não apenas em suas oferendas (folhas de coca, garrafas de álcool e, sobretudo, cigarros), mas também no estilo de vida. Os mineiros precisam sair da mina e manter uma conduta de excessos nos dias de folga, segundo acreditam. A prostituição é muito comum e o envolvimento de menores é abertamente aceito.

Representação do Tío de la Mina, sempre presente nas minas peruanas e bolivianas.

Dados da Polícia Nacional Peruana (que pouco se faz presente, diga-se de passagem) estimam em 1.500 o número de meninas de 15 a 17 anos que atuam como imãs humanos em La Rinconada através da prostituição.

A mineração não destrói apenas o meio ambiente e a saúde dos mineiros, mas a também a vida de muitas adolescentes em situação de risco.

Ninguém é santo na cidade mais alta do mundo…

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