Pernoite em frente aos Bombeiros de La Paloma, para onde empurramos o carro enguiçado.

Em menos de 24 horas, o primeiro perrengue

Hoje dá até pra rir da situação, mas à época não foi nada engraçado.

No dia 19 de novembro de 2016, quando mal havíamos cruzado a primeira fronteira, nosso amigo de quatro rodas decidiu nos deixar na mão.

Isso mesmo: o Papa-Léguas (ou talvez Coiote seja mais apropriado) enguiçou pela primeira vez com menos de 24 horas fora do Brasil. Havíamos iniciado a viagem de carro apenas 1.093 km antes, em Caxias do Sul, Rio Grande do Sul.

Parecia pegadinha do Mallandro…

O primeiro dia: pura empolgação!

Que maravilha pegar a estrada! Empolgação total, carro revisado, confiança absoluta no planejamento e as primeiras belas fotos. Coisa boa, né?

Rodar com o jipão nas areias do Cassino – a maior praia do mundo, em Rio Grande -, foi muito bacana. Logo depois, a satisfação de cruzar a belíssima Reserva do Taim e finalmente pôr os pés em terra estrangeira. Coração a mil!

O que essa galera que viaja o mundo muitas vezes não conta é que toda viagem tem problemas… e às vezes eles nos deixam com o coração na mão. Vou contar aqui como foi o primeiro perrengue da minha aventura pelas Américas.

“Nada pode dar errado”

Estávamos estacionados em frente ao Farol de La Paloma, a apenas 150 km do Chuí, quando sucedeu o fatídico evento. O relógio marcava 18h.

Respiramos fundo e aguardamos. Nossa primeira suposição era que o problema estava na bateria e, se estivéssemos certos, provavelmente 10 minutos bastariam para dar uma mínima carga no sistema.

Tentamos novamente e… Aleluia, o carro “pegou”!

Manobramos e partimos para buscar um lugar para dormir, mas poucos metros depois o carro “morreu” novamente e não voltou a ligar.

Pernoite em frente aos Bombeiros de La Paloma, para onde empurramos o carro enguiçado.
Pernoite em frente aos Bombeiros de La Paloma, para onde empurramos o jipe enguiçado.

Tentando descobrir a origem do problema

Primeira constatação: o motor de partida funcionava, mas o motor de combustão não iniciava. Certamente estávamos diante de uma pane elétrica (mal contato, curto-circuito ou algo do gênero).

Nossa implicância com a bateria nos deixou um pouco cegos para outras possibilidades. Demoramos algum tempo até identificar que o problema real estava na ignição. O tambor (cilindro) havia quebrado e a chave sempre voltava para a posição inicial.

Provavelmente seria preciso substituir a peça ou apelar para a gambiarra de algum eletricista, pois esse tipo de conserto estava além das nossas capacidades. Além do mais já havia escurecido e os bombeiros locais estavam mais interessados na partida de futebol que a TV transmitia.

Não havia mais nada para se fazer ali, diante do carro, queimando os miolos.

Neste momento, consegui conectar-me à internet e conversar com o amigo Rodrigo, que aguardava nossa chegada na capital para o dia seguinte. Contei-lhe a situação e escutei seu conselho: “vai tomar uma cerveja que isso se resolve!”.

Parecia um conselho inútil, mas resolvi obedecer.

Caminhei até o primeiro comércio que ainda encontrava-se aberto e pedi um lanche e uma cerveja. Em minutos estava desabafando com o simpático casal de senhores que atendia, do outro lado do balcão.

Carlos e Mabel, proprietários da lanchonete Comi Paso, foram verdadeiros anjos. Solidários com a situação dos viajantes desafortunados, levaram-me até seu carro e fomos à busca de um eletricista na cidade deserta.

Já havia passado das 23h quando encontramos Victor, proprietário de um ferro-velho que prometeu “dar uma olhada” no jipe, na manhã seguinte.

Ironias da estrada: esta noite, a primeira fora do país, talvez tenha sido a pior de toda a viagem. Não dormi absolutamente nada, preocupado com o desenrolar da história.

Sairíamos dali no dia seguinte? E se precisássemos aguardar por uma peça? Poderia levar semanas!

Vivi horas de desânimo e preocupação, e quando eram 5 horas da manhã, eu já estava “na rua” esperando Victor. Às 7h em ponto ele chegou.

Seu parecer técnico foi realista. Dentro das possibilidades daquele instante, não poderíamos esperar por uma tambor substituto. Era preciso apelar pra gambiarra.

Victor realizou uma ligação direta com materiais de construção improvisados e um interruptor comum funcionando como corta-corrente. Não era a melhor maneira, afinal o superaquecimento poderia gerar um grave curto-circuito, mas desta forma chegaríamos à Montevidéu, onde seria possível trocar o interruptor de plástico por um metálico.

O serviço custou 180 reais (cobrado em reais mesmo), que pagamos sem nem reclamar. A sensação de alívio certamente custava bem mais que isso!

Antes do meio dia, estávamos novamente na estrada, rumo à capital uruguaia. 🙂

Rodovia 10, uma das mais belas do Uruguai.

Ah, e o Papa-Léguas só foi causar nova dor de cabeça seis dias depois, no trajeto entre Buenos Aires e Viedma (não, não estou brincando… mas essa eu conto em outro Diário de Bordo). 😉resumao-dbDe Caxias do Sul, Rio Grande do Sul, Brasil,
até La Paloma, Departamento de Rocha, Uruguai,
passando por Pelotas, Rio Grande, Chuí, Punta del Diablo e La Pedrera.
Distância percorrida: 1.093 km em 3 dias de viagem,
Destaques: a beleza selvagem do extremo sul do Brasil, a primeira fronteira internacional  e o perrengue que jogou um balde de água fria na confiança com nosso meio de transporte.

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Em tempo: para quem caiu aqui de paraquedas e não está a par dos eventos da Expedição Trotaméricas é importante explicar que a viagem estava sendo realizada ao lado do amigo Tim até o dia 20 de janeiro deste ano. Em Arequipa, sul do Peru, os constantes percalços com nosso meio de transporte provocaram a drástica decisão de seguir viagem sozinho, mochilando, enquanto o Tim retornou para o Brasil com o jipe. Mais informações nas seções Itinerário e Etapas.

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